
TODO DIA É DIA DE SER PAI
Carlos Dias Lopes
Jornalista (*)
Hoje é Dia dos Pais. A data é mundial, sendo comemorada em dezenas
de países em dias diferentes. A celebração surgiu nos
Estados Unidos na primeira década do século passado, quando
uma mulher chamada Sonora Luise resolveu homenagear o pai, que tinha conseguido
criar seis filhos sem qualquer ajuda, depois do desaparecimento da mãe
das crianças. Primeiro o Dia dos Pais ganhou o estado de Washington
para depois estabelecer-se no país inteiro como festa nacional. Fala-se
também que na Babilônia, há mais de quatro mil anos, um
jovem chamado Elmesu já teria homenageado o pai confeccionando um cartão
de argila para ele. No Brasil, o Dia dos Pais foi festejado pela primeira
vez em 14 de agosto de 1953, no dia de São Joaquim, patriarca da família.
Por questões comerciais a comemoração foi mudada posteriormente
para o segundo domingo de agosto em nosso país.
Oportunismos à parte, esse dia, gasto pela publicidade como apenas mais uma efeméride consumista, pode ser mais bem aproveitado como oportunidade para uma chamada ao exercício da responsabilidade paterna.
Ganha força em estados brasileiros como Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e no Distrito Federal o movimento dos pais separados. O que querem esses homens (em alguns lugares apoiados por mulheres) reunidos em associações cujo fim parece até certo ponto estravagante perante o senso comum? Reivindicam o que os pais não separados têm, mas com certa freqüência não aproveitam: espaço para participar da vida da prole. Entendem que o fim do casamento não significa obrigatoriamente diminuir o contato físico com os filhos. Querem continuar presentes na vida cotidiana das crianças e adolescentes que ajudaram a gerar.
Acham importante levá-los e/ou buscá-los na escola, ter contato com professores, saber o nome dos amigos, ajudar a colar figurinhas nos álbuns, conhecer seus gostos por comidas e bebidas, entender porque um personagem de TV ou artista lhes faz a cabeça e outro não, ser apresentado ao menino ou menina por quem estão apaixonados, perscrutar seus sonhos e pesadelos, partilhar com as mães reprimendas e conselhos nas horas ruins e alegrias e satisfações nas horas boas. Enfim, acompanhar de perto a ocorrência mais impressionante da vida de um ser humano: seu crescimento e maturação. Cerca de duas dezenas de anos que nunca mais se repetirão, e que escapam num instante.
O movimento dos pais separados por maior participação na vida dos filhos já tem algumas conquistas, mas é minúsculo se comparado ao imenso problema que representa para uma sociedade o revez psicológico (que às vezes também leva ao sofrimento físico) a que estão sujeitos milhões de crianças e adolescentes por conta da ausência ou nulidade da figura paterna em suas vidas.
Esses seres em crescimento que se ressentem da ausência de figura tão importante para sua evolução sadia não são filhos somente de núcleos afetivos desfeitos. Também os há em grande quantidade vivendo em famílias ainda unidas, mas cujo pai, pelos mais diferentes motivos, pouco se apercebe da importância do exercício da paternidade.
Apesar de todos os avanços experimentados nos últimos 40 anos nos padrões masculinos de comportamento, existem ainda muitos pais para quem a paternidade não passa de um fato, ficando o ato, o exercício da paternidade, relegado muitas vezes à ida a uma churrascaria com os filhos... no Dia dos Pais.
Sustenta a Psicanálise que o pai é imprescindível já
desde os primórdios da vida do bebê. Nesse período inicial,
mãe e filho são quase uma única pessoa, o que aumenta
ainda mais a premência da participação do pai na relação.
Segundo os especialistas, ao progenitor cabe justamente o papel de separá-los
positivamente, de atuar por uma necessária independência da criança.
A psicóloga clínica Halina Grynberg, diz o seguinte sobre a
continuação dessa relação triangular: “Num
nível concreto, é claro que há grande diferença
entre um pai afetuoso, participante, e um pai que se omite, que deixa tudo
por conta da mãe. O pai que fica longe, do lado de fora, contribui
para criar filhos muito dependentes da mãe, com muita dificuldade para
enfrentar futuramente uma autoridade, para viver uma vida autônoma,
para se confrontar com o poder.” E devemos lembrar ainda que estar perto
do filho é ter a oportunidade de repassar-lhe toda uma herança
de raízes culturais e históricas familiares, valores que se
revestem de grande relevância numa sociedade em que cada vez mais se
cultua o efêmero.
O filme “Tommy”, baseado na consagrada ópera pop do grupo britânco The Who, é encerrado com a música "Listening to You", cujos últimos versos dizem: “Atrás de você eu vejo milhões/em você eu vejo a glória/de você eu tenho opiniões/de você eu tenho a História.” É o manifesto final do personagem principal da obra, o já adulto Tommy, que passou a infância e a juventude alijado de qualquer interação com o pai. Um atestado da insuperável referência que uma figura paterna presente pode representar na vida do filho.
Publicado no jornal O Popular
Goiânia/GO
13 de agosto de 2006
(*) Carlos Dias Lopes é jornalista especializado em Saúde Coletiva. Diretor da Associação pela Participação de Pais e Mães Separados na Vida dos Filhos (ParticiPais), de Brasília.