
16/01/2009 - Educados para a perfeição (Gilberto
Dimenstein/ Denise Mota - Folha)
Autora do livro "A Nation of Wimps", a jornalista norte-americana Hara Estroff Marano investiga a ascensão da "paternidade invasiva" entre a classe média nos EUA e seus frutos: crianças exageradamente complacentes e que não sabem lidar com seus fracassos
De manhã, colégio. De tarde, aulas de inglês, computação, ginástica. Essa pode ser a rotina normal de uma criança ou adolescente de classe média.
Adicione a esse cardápio cursos extracurriculares, como mandarim, horas de estudo intensivo com professores especializados em exames de admissão das mais importantes universidades dos Estados Unidos e, se houver tempo livre, sessões de CDs e DVDs didáticos. Não há espaço para problemas nem notas baixas -está completa a agenda da criança vítima do "overparenting".
O termo em inglês corresponde a procedimentos de "paternidade excessiva" ou "invasiva" e é um fenômeno que vem se manifestando com vigor -alimentado por uma indústria de produtos educativos destinados a formar gênios desde os primeiros meses de vida- em meio às famílias abastadas dos EUA. Tem como causas tanto fatores de ordem global -as incertezas do panorama econômico mundial, que exige profissionais cada vez mais capacitados- quanto debilidades individuais: por exemplo, pais superprotetores e ambiciosos, em busca de realização pessoal por meio dos filhos, e outros que almejam simplesmente estar convencidos de que seus rebentos são melhores do que os do vizinho.
A análise é de Hara Estroff Marano, autora de "A Nation of Wimps: The High Cost of Invasive Parenting" (Uma Nação de Fracos: O Alto Custo da Paternidade Invasiva). Uma das editoras da revista "Psychology Today", a jornalista, que também escreveu em publicações como "The New York Times" e "USA Today", investiga de que forma o excesso de preparação acadêmica e a preocupação em poupar os filhos dos mais elementares problemas cotidianos levam a uma geração de pessoas "exageradamente complacentes, sem resiliência, sem desembaraço, que se ofendem facilmente e que têm pouca perseverança e tolerância para atingir objetivos", diz.
Mãe de dois adultos, Marano conversou com a Folha sobre o novo "patamar de devoção" aos filhos e os objetivos de seu livro. "Estou preocupada com o futuro. Nenhuma democracia pode prosperar com indivíduos condescendentes, e nenhuma economia pode avançar sem inovação e sem que se assumam riscos".
FOLHA - Que experiência específica a levou a escrever o livro?
HARA ESTROFF MARANO - Em 2002, escrevi uma reportagem sobre o fato de as universidades
procurarem em níveis extremamente altos serviços psicológicos
e psiquiátricos devido ao aumento do número de estudantes com
profunda depressão e desordens de ansiedade que incluíam ataques
de pânico, automutilação, disfunções alimentares,
excesso no consumo de álcool e suas consequências. Comecei a
perguntar o porquê. Todo mundo dizia a mesma coisa: os estudantes não
tinham nenhuma habilidade para lidar com problemas e, portanto, eram facilmente
atingidos por qualquer dificuldade ou desafio. E por quê? Porque seus
pais haviam feito tudo por eles. Buscaram tão ansiosamente o sucesso
de seus filhos que pairaram sobre eles todo o tempo e lhes eliminaram as pequenas
agruras da vida. Se, por exemplo, eles esquecessem um livro em casa, os pais
levariam o material correndo para a escola. Se a criança obtivesse
uma nota que decepcionasse os pais, eles telefonariam para a escola para tentar
mudar a má avaliação. Foi assim que eu descobri o que
chamo de "paternidade invasiva". E decidi escrever sobre isso porque
estou preocupada com o futuro de nossa sociedade, em que estamos alimentando
a fragilidade psicológica em nossos filhos.
FOLHA
- Qual a diferença entre os filhos dos atuais "pais invasivos"
e a criança mimada de décadas atrás?
MARANO - As crianças mimadas, em tese, têm tudo o que querem.
As crianças que têm pais invasivos estão sob superproteção
porque é isso o que os pais delas querem. Não se permite às
crianças dar passos importantes porque seus pais fazem as coisas por
elas, lhes limpam o caminho. Esses pais trabalham para que seus filhos sejam
bem-sucedidos porque a percepção subjetiva do pai repousa nos
êxitos do filho. Há estudos que mostram que estimular os filhos
sem parar é percebido pelas crianças como uma exigência
de perfeição.
FOLHA
- Na Ásia, é comum a existência de crianças treinadas
de modo exaustivo para que sejam excelentes em uma atividade específica.
Qual é a diferença entre essa prática e a paternidade
invasiva ocidental?
MARANO - Uma delas é que as crianças asiáticas são
elogiadas por trabalhar duro. Quando as crianças norte-americanas se
sobressaem, elas são tratadas como "brilhantes", "talentosas",
"espertas", "atletas naturais". A diferença no
tipo de elogio que elas recebem é importante. O reconhecimento que
vem por parte dos pais ocidentais é dado para que se projete sobre
os próprios pais, mas, mais importante, seus filhos terminam pensando
que há um reservatório de talento neles. O problema é
que, quando essas crianças alcançam um certo nível de
dificuldade ou desafios, desistem, porque acham que não são
mais inteligentes. São crianças avessas ao risco e que preferem
o certo ao duvidoso.
FOLHA
- O "overparenting" se deve mais ao contexto externo (aumento da
competitividade no mercado de trabalho etc.) ou à necessidade dos pais
de ter filhos que possam satisfazer suas ambições?
MARANO - É uma combinação das duas coisas. O ponto central
é que os pais estão usando os filhos para atingir suas próprias
necessidades emocionais. Isso é extremamente narcisista. Ao mesmo tempo,
quando você analisa de onde vem toda essa ansiedade paterna, você
vê que sua origem está na percepção que pais e
mães têm de que o mundo mudou, de que agora vivemos em um mercado
global e tudo é muito rápido e dinâmico. Há muito
mais incerteza ou, pelo menos, há a percepção de que
tudo é muito mais incerto. É obrigação de todo
pai e toda mãe preparar seus filhos tão bem quanto possam para
a vida. Mas alguns fracassos são importantes porque nós aprendemos
mais com eles do que com o sucesso.
FOLHA
- Que tipo de pais tendem a ser invasivos?
MARANO - Os pais que apresentam esse comportamento são muito conformistas,
não confiam em suas habilidades como educadores e são muito
críticos em relação a outros pais. Um exemplo: hoje em
dia não é mais suficiente que um pai vá ver seu filho
jogar futebol; ele tem de comparecer a todos os treinos. E, se você
não fizer isso, é considerado um pai ou uma mãe negligente.
O julgamento de outros pais é algo novo e ajuda a fortalecer a rápida
disseminação desse tipo de paternidade como o novo padrão
de devoção a seu filho.