
17/04/2009
- Elise: sequestrada três vezes pelos próprios pais (UOL)
A história de Elise André, uma menina de nacionalidade franco-russa
de três anos e meio, poderia ser a de tantas outras crianças
transformadas em reféns das disputas de seus pais depois de um divórcio.
A história banal de uma família desfeita. Se não fosse
pelo fato de Elise, com sua pouca idade, tivesse sido vítima de três
sequestros consecutivos - alguns com violência - pelos seus próprios
progenitores ou por bandidos contratados para tal fim. E porque o conflito
que separa esta família desde o final de 2007 acabou forçando
a intervenção das diplomacias da França e da Rússia.
Irina
Belenkaya, mãe de Elise - que chama a filha de Lisa, em russo -, foi
detida junto com sua filha na noite de domingo (12) no povoado húngaro
de Tiszabecs, no nordeste do país, quando se dispunha a atravessar
a fronteira para entrar na Ucrânia e, de lá, prosseguir caminho
até a Rússia, onde mora. Três semanas antes, em 20 de
março, Elise havia sido seqüestrada por três indivíduos
- dois homens e uma mulher - quando passeava com seu pai, Jean-Michel André,
oceanógrafo de profissão, pelas ruas de Arlés (Provença),
onde ele mora. O pai foi violentamente agredido pelos bandidos, mas Elise
- dizem testemunhas da cena - não gritou, nem chorou.
Era
a terceira vez que a pequena Elise era levada a força por um de seus
progenitores. Na primeira ocasião foi sua mãe, que em novembro
de 2007 rompeu com o marido - que havia conhecido na faculdade em Paris, sete
anos antes - e levou a filha consigo para a Rússia. Na segunda, foi
o pai, que no ano seguinte foi até Moscou e pegou a filha numa distração
da babá. Irina Belenkaya, que está detida na Hungria, tinha
duas ordens europeias de busca e captura por sequestro. Jean-Michel André
é perseguido pelo mesmo motivo pela justiça russa.
O caso, além do juízo moral que mereça a atuação de cada um dos protagonistas deste drama, está longe de ser claro e transparente. Porque a resposta para a pergunta de quem tem a custódia é: os dois. Por trás do conflito por Elise há uma enorme confusão jurídica que acabou tendo implicações políticas. A justiça francesa outorgou a custódia de Elise ao pai, enquanto a justiça russa a concedeu à mãe. Com dupla nacionalidade, a menina nasceu em 2 de novembro de 2005 em Moscou, o que aos olhos russos é um dado relevante.
Consequentemente, para as autoridades russas, a forma pela qual os franceses e húngaros fizeram as coisas é inaceitável, em particular a rapidez com que as autoridades húngaras devolveram Elise a seu pai, que na segunda-feira (13) viajou a Budapeste e ainda na quarta-feira (15) voltou para a França com a filha.
O ministro de Assuntos Exteriores russo, Serguei Lavrov, expressou os protestos de Moscou pelo que considerou uma "decisão precipitada" e propôs a Paris uma reunião de juristas de ambos os países - entre os quais não há nenhum convênio de cooperação sobre o assunto - para resolver o conflito jurídico que rodeia o caso. Pouco desejoso de acrescentar ao problema um conflito diplomático, o Quai d'Orsay - ainda defendendo a legalidade do procedimento adotado - aceitou a busca de uma solução conjunta "pelo interesse maior da menina".
O que pensa ou deseja Elise é um mistério. A única coisa que ficou clara foram algumas palavras sucintas, captadas pela televisão, depois de seu resgate: "Estou cansada".