
18/05/2008 - O importante no Dia dos Pais é a intimidade com os filhos
Quatro perguntas para a psicóloga mestre em Terapia Familiar
pela New York University Marília Lohmann Couri, diretora da ParticiPais,
sobre as transformações sociais da figura paterna e como aproveitar
bem o Dia dos Pais.
Com a perda da preponderância como figura de provedor e educador dentro
da família, que novos espaços o pai pode buscar e explorar?
Os espaços que a ele sempre couberam, mas que talvez não estivesse
atento: o de ser o primeiro a conduzir o filho ao contato com novas realidades,
além da relação fechada mãe-filho. É com
o pai que o filho aprende a formar vínculos afetivos fora da mãe,
conhecendo por meio dele um representante do outro sexo. Cabe ao pai ser o
modelo masculino, tão importante para a identificação
e relação sexual de meninas quanto de meninos. É também
papel do pai revelar o mundo para o filho, desde a natureza, as coisas materiais
e seu funcionamento, as respostas aos "porquês."... Preparar-lhe
para a vida, a formação de sua personalidade, aumentando a consciência
de si. Cabe ao pai enriquecer a experiência do filho com novas atividades,
novos valores, novos modos de encarar o mundo, levando-o ao desenvolvimento
como cidadão, mostrando-lhe também as regras deste mundo. Vários
autores concordam que é do pai que vem a sensação de
segurança, ordem, estabilidade, disciplina, responsabilidade, espírito
de iniciativa, desejos de liberdade e coragem para encarar o mundo.
Mesmo não estando presente fisicamente, no caso do pai separado, é
possível exercer uma paternidade completa?
Acho que paternidade ou maternidade completa só (e se) existe
quando o bebê é pequeno e os pais acreditam ter um controle sobre
ele (ninguém pode estar no lugar do outro e sentir o que ele sente).
Já desde pequeno nascemos com uma série de sensações
e memórias do ventre materno e na minha experiência clínica
conheço relatos de vários homens que afagaram o ventre da mulher
e conversaram com o feto durante a gravidez e cujos bebês, depois de
nascidos, se acalmavam ao escutar a voz paterna. Infelizmente se o pai não
está presente fisicamente não poderá acompanhar vários
momentos cotidianos da vida dos filhos. È nos momentos cotidianos que
os pais podem e devem passar seus conhecimentos, etc. (o que já mencionei
na resposta anterior). Por isso é importantíssima a prática
da Guarda Compartilhada. Além da presença física o pai
deve estar consciente do quanto é relevante sua presença emocional,
afetiva. À medida que os filhos crescem é importante que se
lembrem e saibam que podem contar com seus pais mesmo que já não
estejam com eles do modo como estavam quando crianças.
E o papel da mãe nesse momento de transição da figura
paterna, qual é?
A mãe deve dar todo apoio necessário ao pai, estimulando-o
em todos os momentos. A mulher é muitas vezes a grande responsável
pelo afastamento de um pai de seu filho desde seu nascimento. Em inglês
existe o termo se referindo ao papel deste tipo de mãe como gate keeper,
algo como mãe "guardiã do portão" de contato
com o filho. Há mães que acham que os pais não são
capazes de segurar um bebê porque vão deixá-lo cair, etc.,
que trazem consigo estereótipos de suas famílias de origem e
de imagens de pais que não sabiam cuidar de seus filhos, sendo meros
provedores. Quando os pais se separam, a mãe deve compreender que o
filho não é só dela, que apesar de o sistema conjugal
ter sido desfeito, o sistema pai-filho existirá para sempre e que ex-cônjuges
terão pelo resto da vida que lidar um com o outro. Quanto melhor o
relacionamento entre dois genitores que são ex-cônjuges, melhores
chances de seus filhos serem felizes e crescerem sem conflitos de lealdades.
Quais atividades a senhora recomendaria a um pai e a um filho para
que aproveitem muito bem, juntos, o Dia dos Pais?
Atividades que levem em consideração tanto a idade
dos filhos quanto as habilidades paternas. As atividades com um filho adolescente
são diferentes das com um filho criança. O importante é
que o pai e o filho se entrosem e tenham momentos particulares, íntimos
e felizes que só são dos dois (ou mais, em caso de existirem
outros filhos). Os homens que tenham filhos muito pequenos, mesmo de colo,
também podem planejar atividades com eles. É muito importante
mesmo para quem tem um filho bebê que este se acostume com o pai, com
as sensações térmicas, táteis, olfativas e auditivas
dele. As crianças têm a capacidade sensorial muito desenvolvida
de modo que ao estar com o filho o mais importante é a vontade de estar
com ele. Os filhos captam muito bem a "presença-ausência"
de seus pais. Os próprios filhos se incumbirão de dizer a seus
pais que tipo de atividades gostarão de realizar. Se os pais forem
capazes de se lembrar de sua própria infância e observarem seus
filhos, também serão capazes de realizar atividades que os satisfaçam.
Para os pais que não convivem com os filhos é importante estar
com eles e não usarem de "terceiros" (tipo cinema, televisão),
a não ser que esta seja a vontade do filho. Ainda assim, depois devem
conversar sobre o que foi visto. Há também vários livros
com exemplos de brincadeiras à disposição nas livrarias.