
A Nova Mulher Mãe no Contexto da Família Moderna (10/03/2003)
I - A
FAMÍLIA MODERNA
A família moderna vem-se estabelecendo pela contestação
do modelo patriarcal familiar. A Revolução Industrial, tardiamente
chegada a nosso país, a Segunda Guerra Mundial, e a adoção
da mão de obra feminina pelo sistema capitalista de produção
são fatores decisivos à ampliação do trabalho
da mulher não apenas no âmbito do lar familiar, educação
dos filhos, para galgar também posições profissionais
no espaço público. A atuação feminina não
mais se restringe ao âmbito privado. Nesse contexto, o modelo patriarcal
de família e, por conseqüência, de sociedade não
mais encontra guarida. Vivemos um período de franca transição
e de conflitos entre o masculino X feminino. Ao estabelecer-se um novo paradigma
social muitas questões palpitam em nossos corações: como
se daria a maternidade; qual a função do pai; quais os valores
a serem repassados às nossas crianças, e como? Conceitos como
pai provedor, chefe da família, aquele que decide e provê, e
mãe colaboradora e "do lar", aquela que incansavelmente trabalha
no espaço privado, sem direito a salário, nem férias,
ainda, o conceito de casamento indissolúvel, uniões infelizes
para sempre, tudo isso começou a ser questionado, com a lenta, mas
permanente ascendência da mulher no mercado de trabalho. A mulher conquistou
a independência econômica. Teria conquistado a independência
emocional?
A Família
- Célula Mater
Não se questiona o valor da família tradicional que nos trouxe
até aqui. Entretanto, parece unânime a opinião de que
esta família precisa de ser repensada. Crimes como o de Suzane von
Richthofen perpetrados contra pai e mãe nos chocam e nos lembram da
necessidade não só de questionarmos os valores sobre os quais
nossa família e, por conseqüência, nossa sociedade estão
fulcrados, como também na premente necessidade de trazermos à
baila e ao senso comum respostas efetivamente criativas. O questionamento
daquilo que vigora, mas não serve ou não presta é importante.
No entanto, é apenas um primeiro passo. As sugestões e as soluções,
ainda que circunstanciais, já que estamos lidando com seres humanos
em constante mutação, são mais que bem-vindas, são
urgentes, deveriam ser naturais em uma sociedade como a brasileira, reconhecida
por suas qualidades de flexibilidade e criatividade. É que o ranço
patriarcal permeia nossos valores e nossa cultura das formas mais sutis, e,
por isso, mais difíceis de combater, às mais grosseiras, e impede
que tais respostas criativas surjam com a rapidez que gostaríamos.
E as soluções que surgem ainda encontram barreira na impossibilidade
de sua pronta aceitação, em razão da incapacidade de
se criticar a sagrada família. Há uma grande dificuldade de
mudarmos qualquer conceito que se refira à família. É
senso comum o fato de que o ser humano não consegue sobreviver aos
primeiros anos de vida sozinho. A família é imprescindível
não só à formação do ser humano, mas à
sua sobrevivência. Por tal razão a nominamos: célula mater.
É senso comum também o fato de que a família moderna,
ou seja, aquela que vivenciamos na atualidade, não tem conseguido cumprir
o seu papel de formar seres humanos. Vivemos um contexto permanente de guerras
e, especificamente, quanto ao Brasil, de violência, de miséria,
de exclusão, de competição e de ausência quase
absoluta de solidariedade. Por igual, a desagregação familiar
é fato corriqueiro nos tempos modernos. Acontece pari passu com a emancipação
feminina e com a sua independência econômico-financeira. Existem
estatísticas que apontam que 30% dos casamentos brasileiros terminam
em divórcio (vide Revista Veja do dia 05.03.03). Sem contar a desagregação
pelo fim das uniões estáveis, reconhecidas por lei há
menos de uma década. Com a dissolução da primeira família
constituída pelo casal, podem surgir, pelo menos, duas formas distintas
de família:
a) a família monoparental: aquela composta por um dos genitores e os
filhos. Essa família também acontece no caso de mães
solteiras ou de pais/mães solteiros e seus filhos adotados; b) a família
reconstruída: aquela composta pelo casal e filhos de uniões
anteriores, inclusive
Família
Monoparental
A família monoparental é fato cotidiano no nosso dia-a-dia.
Chegou mesmo a ser reconhecida como entidade familiar, para efeitos de proteção
legal, pela Constituição de 1988 (art. 226, § 4o). A família
monoparental se compõe por um dos progenitores e a prole.
Família
reconstruída
A família reconstruída, ou seja, aquela em que um dos cônjuges
ou companheiros trazem para o seio familiar prole de relações
anteriores é uma ocorrência banal moderna. Trazem peculiaridades
inéditas na história da instituição familiar,
provocando situações sem precedentes. Com efeito, há
uma espécie de "vazio social". Em outras palavras, sendo
uma experiência inédita e não vivida por nossos ancestrais
ou pelas gerações que nos antecederam imediatamente, não
há padrão a ser seguido. Não existe paradigma a ser quebrado.
Não há o "minha mãe fazia deste jeito". É
uma situação inteiramente nova, e, como tal, traz a imensa possibilidade
de se criar sobre essa nova forma de agregação familiar. Pelo
ineditismo da situação, várias são as dúvidas
e grande é a ansiedade dos atores envolvidos nessa nova cena familiar;
tanto que verifico, empiricamente, que grande parte dos questionamentos da
instituição família e da necessidade de adaptação
de sua forma aos tempos modernos vêm precisamente de pessoas que vivenciam
a desagregação de sua família e/ou a reconstrução
de uma nova. Há dúvidas quanto aos termos utilizados, se padrasto/madrasta,
padrinho/ madrinha, tio/tia. Há dúvidas quanto ao exercício
da autoridade sobre filhos alheios etc.
II - A
NOVA MULHER MÃE
A busca da igualdade. A responsabilidade. Independência econômica
e emocional. Autogestão (Reich).
Com a conquista também do espaço público, pela inserção
da mulher no mercado de trabalho, galgamos nossa independência econômico-financeira,
nosso direito de votar e de sermos votadas, nosso direito de manifestarmos
publicamente nossa opinião, enfim, nossa cidadania (direito a ter direitos).
Conquistamos, formalmente, no Direito brasileiro, a igualdade de direitos
e deveres em termos genéricos (art. 5o, caput, CR), e em termos específicos
quanto à sociedade conjugal (art. 226, caput, CR). Hoje, a consagração
do princípio da igualdade entre homens e mulheres se vê em inúmeros
preceitos, sobretudo de Direito de Família, no Novo Código Civil.
Tal não se dá, nos mesmos termos, no que diz respeito ao espaço
privado. A mesma desenvoltura feminina não se manifesta, em regra,
quando se trata de independência emocional, de maturidade. Ainda buscamos
o príncipe encantado, o homem que provê, que nos passará
segurança, que cuidará da nossa prole, que cuidará de
nós mesmas, que trocará o pneu do nosso carro, ou o levará
na oficina mecânica, se necessário for. Aquele que pagará
sozinho a conta do motel... Vendemos a nossa liberdade, a nossa independência
afetiva, em troca de uma frágil e ilusória segurança.
Agimos como prostitutas. Delegamos parte de nossa capacidade de autogestão,
por medo de gerenciarmos as nossas vidas sozinhas. Todo exercício de
liberdade encerra, necessariamente, a responsabilidade pela autogestão.
Em suma: o exercício da liberdade que a autonomia econômica possibilita
exige, concomitantemente, que assumamos, por igual, as conseqüências
dos nossos atos. Não dá para responsabilizar terceiros, o pai,
a mãe, o marido, o namorado... Somos nós mesmas as responsáveis
pelas nossas escolhas. É nesse contexto, que precisamos rever os papéis
familiares: de mãe, de pai e de filhos. Como a liberdade econômica
não veio, necessariamente, acompanhada da independência emocional
e da maturidade, urge que reflitamos nesse sentido também, sob pena
de nos vermos acuadas com uma dupla ou tripla jornada de trabalho, sob pena
de perpetuarmos a eterna falta de liberdade que vivemos. Os anseios femininos
não podem se limitar à necessidade de nos realizarmos enquanto
seres humanos pensantes, pelo trabalho. Urge dividirmos a responsabilidade
pela educação de nossos filhos, os cuidados com a organização
da casa, deixando-nos tempo para cuidarmos da nossa saúde e bem-estar
físico e para nos realizarmos sexualmente. São muitas tarefas
para 24 horas. Precisamos de dividir. E não é apenas com a empregada
doméstica ou com a babá, frutos da nossa sociedade miseravelmente
desigual: é principalmente com o pai. Talvez em decorrência do
resquício escravagista e da gritante desigualdade social brasileira
vividos pelas figuras de nossas empregadas domésticas e babás,
não tenhamos, ainda, a necessidade urgente das mulheres européias
e norte-americanas de dividirem as tarefas domésticas, a educação
e a guarda, se for o caso, dos nossos filhos com os nossos companheiros, com
os pais.
O papel
do pai. Cooperação. Iniciativa espontânea ou não.
Nesse contexto, verifico, empiricamente, pelo menos, duas situações
distintas no âmbito familiar:
a) a do pai que espontaneamente divide as tarefas domésticas e educa
em conjunto os filhos do casal (agradeçamos às suas mães
pela boa educação que lhe passaram. Agradeçamos, em suma,
às mulheres visionárias de gerações anteriores.
Agradeçamos, por fim, à espontaneidade tão bem-vinda
e que evita tantos conflitos);
b) a do pai que não toma tal iniciativa, apenas repete mecanicamente
o padrão social patriarcal, que se tenta quebrar (é antes um
ser desprovido de autoconsciência do que propriamente um "algoz").
Nós, mulheres, não podemos cruzar os braços e esperar
que a iniciativa venha desse homem, resquício do patriarcal - porque
certamente terá outras inúmeras qualidades. É necessário
sairmos do caminho, deixarmos de fazer certas atividades domésticas,
criarmos a oportunidade de que esse companheiro, esse pai, participe; seja
pelas nossas necessidades profissionais, seja pelas nossas necessidades de
tempo, seja pela evidente atitude saudável com relação
às nossas crianças. Parece ser senso comum o fato de que, se
mantivermos esse ritmo frenético de competição e destruição,
não sobreviveremos, com os recursos naturais de hoje, por mais de três
décadas. São evidentes os ganhos que a sociedade patriarcal
nos lega: o cientificismo, a tecnologia, a velocidade da informação.
Entretanto, é igualmente evidente o mal que a competição
entre o masculino e o feminino, com a subjugação deste último,
na sociedade patriarcal, tem causado à nossa sociedade. É necessário
substituirmos o modelo de competição que vivemos, fruto da sociedade
patriarcal, para um modelo novo, o da cooperação. Por que não
começarmos essa cooperação dentro de casa, na célula
mater? Por que não começarmos essa cooperação
precisamente com nossos maridos e companheiros? Ensinando, pelo exemplo aos
nossos filhos?
Contexto de desagregação. Separação.
Sugestão do compartilhamento da convivência com os filhos como
conseqüência natural do que já era antes vivido.
A minha prática profissional, advocacia em Direito de Família,
me permite afirmar sem errar: aquela mãe que tem vida própria,
que é realizada profissional, afetiva e sexualmente não cria
empecilhos à convivência de seus filhos com os pais. Ao contrário:
ela "sai de cena", permitindo e, às vezes, exigindo mesmo,
que, também no espaço privado, o homem possa ser um grande colaborador
seu, permitindo que o homem também expresse sua individualidade original,
no seio familiar. Se as tarefas domésticas, a criação
dos filhos são divididas entre homem e mulher, é quase uma conseqüência
natural que continuem a sê-lo, após a separação,
por mais traumática, dolorida que esta última seja. Convenhamos:
não existem separações que não sejam traumáticas
e doloridas. O que varia é a maneira amorosa, madura ou não
em que se desenvolvem referidos processos de separação. Digo
amorosa, principalmente, quanto às pessoas dos filhos, inocentes que,
em geral, muito pouco opinam ou mesmo, raramente, são chamados a opinar,
no processo de desagregação familiar, embora sofram, como ninguém,
as conseqüências. É o traço da família autoritária,
nada, nada, democrática. Filho não é para ser ouvido,
é para aprender a obedecer, de preferência sem questionar. Ah!
esses adolescentes... Socialmente, há uma errônea noção
de que mãe não erra, mãe não trepa, mãe
é sagrada, mãe sabe o que é melhor para o filho e o filho...
este? Filho é da mãe: "quem pariu Mateus que o crie",
brocardo popular. Quando se sabe que: mãe erra, mãe tem desejos
sexuais, como qualquer outro animal, mãe não é sagrada,
mãe nem sempre (ou quase nunca) sabe o que é melhor para os
seus filhos, e, sobretudo: filho não é da mãe. Filhos
são do mundo, são seres humanos e não estão sujeitos
ao direito de propriedade. Filhos não deveriam ser "moeda de troca"
em separações de casais. Mães não deveriam se
preocupar mais com a pontualidade da obrigação alimentícia
do que com a convivência saudável de seus filhos com os respectivos
pais. Não deveriam estar mais preocupadas com a guarda de suas crianças,
em razão de referida pensão, ou pela cobrança social,
que é fortíssima, do que em se respeitarem enquanto indivíduos,
que têm medos, angústias, incertezas e necessidade de tempo só
para elas: sem filhos.
Necessidade de conscientização da nova mãe. Liberdade
com responsabilidade
Creio que a mulher moderna precisa de entender, assimilar - e rápido,
pois nossos filhos estão crescendo - que não viverá a
liberdade, enquanto não compartilhar a educação dos filhos
e as tarefas domésticas com os pais e companheiros. Não se expressará
plenamente, como indivíduo, não contribuirá para a formação
de seres humanos mais livres e mais felizes. O repensar a família moderna
encerra necessariamente a reformulação dos papéis de
seus protagonistas. Não precisamos de deixar "o sapato apertar",
seja pela dor da separação, seja pela prisão que a labuta
feminina sozinha, no lar, diariamente, acarreta, para tomarmos certas atitudes,
a fim de mudar e melhorar o convívio em família. Se é
certo que teremos mais responsabilidade sobre nós mesmas, enquanto
indivíduos responsáveis por nossas próprias escolhas,
é certo também que colheremos o imenso prazer que é respirar
em liberdade.
Palestra proferida pela advogada Deirdre de Aquino Neiva, vice-presidente da ParticiPais, no Terraço Shopping, em 10 de março de 2003, por ocasião da semana de homenagens ao "Dia Internacional da Mulher".